Amazona & Bike Anja

A BICICLETA NA MINHA VIDA

A minha história com a bicicleta é bem antiga, desde muito criança sempre gostei de pedalar. Quando cheguei na adolescência, deixei um pouco de lado as pedaladas devido aos estudos. Mas depois que formei e comecei a trabalhar, veio aquela velha cobrança de amigos e família de se ter um carro, cheguei até fazer autoescola e tudo, mas morria de preguiça de acordar cedo e ter que dirigir rsrs logo a época de testes expirou e não me interessei mais em voltar as aulas.

Depois disso, me mudei para um bairro novo e distante onde eu tinha que caminhar uns seis quarteirões para ir ao mercado e naquele sol escaldante, né? Bem, pensei, por que não comprar uma bicicleta? E foi aí que reatei de vez a minha relação com ela rsrs e até hoje essa relação de mais de 10 anos vem transformando a minha vida, pois comecei a ver a cidade de maneira diferente, a ser mais crítica, a reivindicar meu espaço nas ruas.

No início era apenas por lazer, pois sempre gostei de sentir essa sensação de liberdade que a bicicleta te dá. Saía sem destino pelo simples prazer de conhecer novos lugares. Nunca havia pensado em utilizar a bicicleta para ir ao trabalho pois na época achava perigoso, ainda mais eu sendo mulher, e também porque nunca via nenhuma se aventurando pelas ruas. Passei um bom tempo utilizando transporte coletivo para ir ao trabalho, e como qualquer outra cidade que se desenvolve, vieram os problemas relacionados a superlotação, demora e sucateamento dos ônibus. Em meio a todo esse caos, um dia resolvi experimentar ir ao trabalho pedalando e descobri na bicicleta um meio de transporte barato, eficiente, sustentável e saudável.

Desde lá ela tem sido minha fiel companheira. Confesso que, há uns anos, era bem difícil pedalar pela cidade pois, além dos assédios verbais, o que era chato pra caramba, o pior para mim era a violência no trânsito, a falta de respeito, muitas vezes precisei subir na calçada para não correr o risco de ser atropelada por excesso de velocidade. Mas essa realidade vem mudando de uns anos pra cá, ainda que lentamente, com o surgimento de pessoas envolvidas em prol da bicicleta.

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PEDALA MANAUS E BIKE ANJO MANAUS

Durante alguns anos sempre pedalava sozinha, pois ainda não existiam os grupos de pedais que se tem hoje. Em 2014, soube pela internet que um grupo de pedal ia fazer uma ação social para as crianças do Hemoam e foi assim que conheci a galera do Pedala Manaus, essa associação que vem realizando varias ações e projetos, estimulando o uso da bicicleta como esporte lazer e transporte.

Hoje participo como voluntária tanto no Pedala Manaus como no Bike Anjo Manaus, esse último ensinando adultos a realizarem o sonho de aprender a pedalar. Essa atividade é feita todo último domingo do mês e também temos outra atividade chamada Quinta Coletiva para quem já aprendeu a pedalar na EBA ou ainda não se sente segura pedalando sozinha e quer experimentar as ruas de bicicleta a noite de forma segura. Lá damos dicas de comportamento no trânsito, mecânica de bicicleta e rotas seguras. Além de bike anja, sou responsável pelos registros fotográficos.

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Ser bike anja pra mim é muito bom, a experiência de você realizar um sonho e sentir que seu aluno confia em você é algo gratificante. Fico feliz pois a maioria que nos procura para aprender a pedalar é mulher. Sempre converso com elas e conto da minha experiência de pedalar nas ruas e meu amor pela bicicleta. Elas chegam com vontade e a gente vibra com cada conquista delas. Claro que sempre rola uma lágrima de alegria nos depoimentos, nos agradecimentos por ter proporcionado a realização de um sonho, pela paciência dispensada e por acreditar na capacidade de cada aluno. Espero sempre poder continuar nesse projeto lindo e mostrar a essas mulheres, e homens também, o poder de transformação que a bicicleta realiza naqueles que resolvem adotar esse meio de transporte para sua vida!!

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Marileia Seixas: Professora de escola pública, 38 anos. Faz parte do movimento Pedala Manaus e é Bike Anja.  Utiliza a bicicleta como meio de transporte e é apaixonada por fotografia.

Rumo à Aparecida… de bike!

#PedaldasAnjas aconteceu sábado passado – foi exclusivo para mulheres:

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’13º Pedal: Aniversário de 1 ano das Bike Anjas

 clique para ver FOTOS no evento no Facebook 

Quando: Sábado, 22.07, às 15h;

Ponto de encontro: Memorial da América Latina

(na rampa, saída da estação de metrô Barra Funda ) 

Um desafio ao qual eu me propus… e venci!

pedalei de SP até Paris……cida ;D

Foram 161 quilômetros em 12 horas, com velocidade média de 13km/h. 

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Éramos umas 14 pessoas: uns oito homens e seis mulheres. Fomos de Van até o começo da Rodovia Ayrton Senna e começamos o pedal às 22h de um sábado, dia oito de julho de 2017. Era noite de lua cheia, céu limpo e sem nuvens, um friozinho… bom para pedalar. Noite perfeita! Pedalar na estrada à noite foi uma aventura e tanto! Éramos guiados pelos faróis de nossas bikes e dos veículos que cruzavam conosco. Com paradas a cada 30-35 quilômetros, em pontos específicos e seguros, para repor as energias e se alimentar, se hidratar e ir ao toilette. E depois… volta pra estrada para pedalar 30-35 quilômetros direto, sem faróis vermelhos, pedestres, ou obstáculos quaisquer, só pedalar, pedalar e pedalar.

É uma adrenalina muito boa. As horas passaram sem que eu sentisse. Nunca imaginei que iria pedalar a noite toda sem que sentisse sono, cansaço, dor, desconforto – nada. Só uma alegria imensa. E quando começou a clarear o dia? O sol nascendo… que espetáculo! A mudança gradativa da noite que se esvai para o dia que desponta, e eu ali, pedalando, e assim, participando desta transformação divina que é pedalar!

Cada uma das cidades deixadas para trás era uma superação. Quando então chegamos à placa onde era indicado o último quilômetro antes de adentrarmos a cidade de Aparecida…Eeeehhh! Euforia! A alegria de depois de uma curva, avistar a catedral, e ter gás, que voltou com força renovada: acelerei, feliz da vida! Eu consegui! Nós conseguimos!!!Txt_aparecida_foto_01Digo também a vocês, conquistamos tanta alegria depois de momentos tensos. Antes de tudo, os três guias e organizadores, equipados com rádio, deram os avisos gerais, o que incluia, por exemplo, pedalarmos juntos. Porém, após o início do pedal, parte se destacou e então foram ficando uns muito à frente, outros muito atrás, e assim eu acabei ficando sozinha com uma colega depois de perdermos o segundo pelotão. Fiquei para trás, pois decidi esperar outra ciclista mulher como eu, e que não estava preparada para aquele ritmo. Já fiquei sozinha, me pus no lugar dela, porisso ficamos juntas. E lá se foram quase 30 quilômetros na estrada. Foi por Deus que não tivemos pneus furados ou qualquer outro imprevisto, pois por durante algum tempo, estávamos só nós. Quando chegamos ao ponto de encontro, o apoio final ainda demorou, e foi então soubemos que um grupo havia ficado para trás, com o azar de terem quatro câmaras furadas, além das gancheiras da bike do guia e organizador terem quebrado, impossibilitando ele de prosseguir com o pedal, e tudo bem, já que voltou com o carro de apoio.

Em um pedal como este, penso que seja imprescindível todos ficarem juntos, para que todos possam se sentir em segurança. A pressa de uns não pode significar o prejuízo do grupo, pois combinado não sai caro, e nos avisos havia um combinado. Espero que essa juventude possa aprender a esperar, com mais calma.

E minha bike? Ela foi maravilhosa, não me deu trabalho algum, só orgulho! Mas a próxima quero ir em um ritmo mais de passeio mesmo, podendo fotografar toda beleza do caminho, pois adoro registrar o que vejo. Pelo visto será em um próximo pedal, já que não foi neste. Bola pra frente!

Pronta para a próxima!

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Helenice Maria da Silva, idade 5.3, solteira, podóloga e massoterapeuta. Descobriu há apenas quatro anos e meio a bike, que transformou o seu mundo!

Texto: Helenice Maria da Silva

Revisão: TheLouise Stern

1 ano de Pedal das Bike Anjas

Pedalar sim, desistir jamais!

Participei em 2016, há um ano, do 1º Pedal das Bike Anjas. Infelizmente até agora fui apenas no primeiro, pois os encontros mensais posteriores acabaram coincidindo com outros compromissos. No entanto, apesar de apenas um, posso dizer que ter participado dele marcou-me bastante e foi o impulso inicial necessário para tirar algumas dúvidas e enfrentar alguns receios.

[#pedalpassado] foi exclusivo para mulheres: ’13º Pedal: Aniversário de 1 ano’ clique para ver FOTOS no evento do Facebook Ponto de encontro: Memorial da América Latina (ao lado da estação Barra Funda da Linha Vermelha do Metrô) Quando: Sábado22 de julho, às 15h;

Antes de participar do grupo eu achava que não tinha condições físicas de pedalar por aí e superar ladeiras, apavorava-me a simples ideia de transitar entre automóveis, era insegura até mesmo ao andar ao lado de outra bicicleta e achava que a bike estaria limitada a meus momentos de lazer. E a dúvida maior: será que eu realmente gostava de pedalar?

E foi com toda essa carga que eu compareci àquele encontro, em julho de 2016, disposta a, se não obter todas as respostas, pelo menos estar disponível a uma nova experiência. Para além das expectativas, o pedal resultou em uma sensação fantástica de realização, superação e acolhimento, proporcionada pelas atenciosas Anjas.

Porém, naquela primeira noite eu ainda não sabia que ela seria apenas o início de uma relação que vem se tornando cada vez mais profunda. Apesar de ter gostado muito de pedalar no grupo das Bike Anjas, logo depois fiquei distante da bicicleta uns quinze dias… e comecei a sentir muita falta.

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Para tentar descobrir um pouco mais sobre por que estava me sentindo daquela maneira e tentar entender qual seria minha relação com a bicicleta, me autodesafiei a pedalar por trinta dias seguidos. Não foi uma tarefa fácil, pois isso demandou encarar a bicicleta não apenas como um momento de lazer, mas também como um modo de vida. E foi aí que o pedal das Bike Anjas me ajudou, pois, ao lembrar o que eu havia feito e sentido, o desafio ficou um pouquinho mais fácil de ser encarado e, hoje, tenho a bicicleta como um de meus principais modos de locomoção por São Paulo (ao lado de caminhada e transporte público).

Foi em cima de uma bike que:

  • minha relação com a cidade se aprofundou;

  • passei a olhar pessoas e lugares sob uma perspectiva mais respeitosa;

  • comecei a entender melhor meus limites físicos (e, quem sabe, psicológicos). E, assim, também aprender como superá-los;

  • tornei-me mais confiante para pedalar pelas ruas paulistanas;

  • descobri ângulos de visão por entre os caminhos que passo e que nunca havia visto antes;

  • encontrei menos hostilidade dos motoristas do que estava esperava. A verdade é que descobri que existem muito mais pessoas dispostas a dividir as ruas e criar um ambiente agradável e receptivo para todos os modais de locomoção do que eu poderia imaginar antes de minha experiência durante o autodesafio;

  • minha relação com a bicicleta e a mobilidade ativa estreitou-se e ficou tão afinada que também me envolvi num empreendimento, a Mármaris, voltado para a confecção de bolsas personalizadas, que eu pudesse usar tanto na bike como em minhas caminhadas.

Todo esse movimento iniciou-se quando fui acolhida por este grupo das Bike Anjas. Contudo, tanto a melhoria da minha relação com a cidade e as pessoas, quanto o aprofundamento da confiança e a ampliação dos horizontes foram todos muito além das alamedas bicicletáveis, pois esta atmosfera começou a influenciar minhas atitudes positivamente e este resultado passou a refletir em todo o meu entorno.

É bom que, ao parar e observar o modo como a bicicleta afetou minha vida, eu reafirme dois fatores essenciais para que eu começasse a pedalar por aí: minha vontade de experimentar e, claro, ter encontrado Anjas que toparam me acompanhar no início dessa minha estrada, longa estrada. Isso, há só um ano. Que venham muitos mais. Parabéns a todas as envolvidas!

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Maísa Kawata é uma desencaixada inquieta. Descobriu que só conseguiria encontrar-se no mundo se trabalhasse para melhorá-lo. Para isso, fundou a Mármaris (www.vademarmaris.com.br), um empreendimento que vende bolsas que incentivam a mobilidade ativa, e criou o site Spiritus Mundi (www.spiritusmundi.com.br), no qual dá dicas de viagem, passeio, fala de experiências de vida e conta muito sobre sua relação com a bicicleta.

Texto: Maísa Kawata

Revisão: TheLouise Stern

 

Meu primeiro pneu furado

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Não basta ser segunda-feira, aquele dia da semana que você já começa com preguiça, tem que ser segunda-feira com céu cinza e mais chuva. Para ajudar, a energia elétrica tem que acabar logo que você levanta da cama. Assim você já começa o dia pensando no uniforme amarrotado, que não será passado porque no sábado também não teve eletricidade por conta da troca da fiação na rua. Pensa no almoço pronto que terá de esquentar no fogão, no banho quente de caneca e em tantas coisas que não será possível realizar só pela falta de eletricidade.

Saio de casa atrasada, pego minha bicicleta, passo por vários semáforos desligados, pelo trânsito caótico, e quando chego na metade do caminho percebo minha bike estranha: descubro que meu pneu traseiro está furado. Desço da bicicleta, penso nas possibilidades…

Posso trocar o pneu, já que eu fiz uma oficina com as meninas do Bike Anjas e os Bike Anjos, e lembro que pareceu fácil com elas.

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Também já vi gente trocando pneus, além do mais tenho comigo o kit remendo e uma câmara extra, mas acho melhor não arriscar ficar parada, o lugar não é muito seguro e a chuva está mais intensa. Penso em ligar logo para meu marido e pedir para ele me salvar, ou ainda ligar na Porto Seguro e solicitar que alguém troque meu pneu (sim, a Porto Seguro tem esse serviço), ou posso até mesmo pegar um Uber bike e resolver o pneu depois.

Olho no relógio e percebo que não resta tempo para nenhuma das opções, o jeito é empurrar a bicicleta até o colégio, são apenas dois quilômetros.  Mas como hoje não foi uma segunda-feira qualquer, a chuva decidiu dar o ar da graça com mais força, tanta que o alforje ficou tão pesado que acelerou o processo e logo murchou meu pneu por completo. Tive que carregá-lo no ombro, e somado a  isso, o solado do meu tênis parecia ter sabão, de tão escorregadio cada passo, até que em um  momento precisei me segurar na grade de um prédio para não cair com a bicicleta, e claro que os dois cadarços do meu tênis desamarraram durante as peripécias, e lá fui eu fazer malabarismo para segurar a bike, o alforje, amarrar os tênis. Os dois quilômetros pareciam intermináveis… Mas consegui chegar no trabalho, toda molhada e com apenas cinco minutos de atraso.

Na hora de ir embora, a chuva veio com mais força, mas meu marido foi me resgatar e me ajudou a trocar o pneu na garagem do prédio.

Certamente meu primeiro pneu furado foi inesquecível.

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Thatiane Campos, 31 anos, é ciclista, professora, há um ano  e meio cansada de ficar horas dentro do carro para percorrer alguns poucos quilômetros, passou a deixar o carro na garagem e pedalar pela cidade, e em pouquíssimo tempo a bicicleta se tornou um vício, tanto que não consegue sair de casa se não for de bike, e neste ano fez sua primeira cicloviagem.

Texto: Thatiane Campos

Revisão: The Louise Stern

“Pedalo Sim”…

…ou “Com quantos cigarros se compra uma bicicleta?”

Em 2013 conversava sobre respiração com uma amiga, Alzira Andrade, quando seu marido, Mauai, nos interrompe categoricamente: “se cigarro não fizesse mal, faria um bem incalculável!”. Eu, à época, chegava a gastar uma cartela por dia “separando os pregos do caixão”, como dizia minha avó. Odiava a perseguição que tinham comigo, insistência em me fazer parar de fumar. E a frase do Mauai reagiu como um mantra em meus pensamentos, especialmente nos dias em que a aflição por um cigarro vinha me importunar. Entendi: ele quis dizer que se não fosse a fumaça cancerígena, sobraria no ato de fumar apenas nossa vontade ancestral e profunda de respirar – bem fundo. Já ouvi dizer que é na respiração que a alma se encaixa no corpo, e que a percepção aguçada por este momento produz integridade. É isso que sinto quando pedalo. Respiro, integrada ao universo, tomo banho de vento. A cada giro do pedivela conecto-me comigo mesma.

Fumei por mais alguns meses naquele 2013, e vez ou outra lembrava de respirar bem fundo também sem precisar da muleta que é o cigarro. Num dia qualquer, meu relacionamento com o tabaco finalmente acabou, e o lugar não ficou vazio. Tinha então uma bicicleta para me fazer respirar bem fundo, e foi com algum esforço e muitas pedaladas que fui esquecendo o que é ter vontade de fumar. Já faz uns quatro anos.

Mas o Blog das Anjas não tem a ver com bicicleta? Deixa os fumantes em paz…! Afinal, também há várias e vários ciclistas que fumam, e é falsa a ideia de que todo ciclista é ou tem que ser saudável. Sem estereótipos por aqui, ok? Não quero pressionar ninguém a parar de fumar, e sim contar a quem se interesse como foi libertadora minha experiência de trocar o cigarro pela bicicleta. Àqueles e àquelas que fumam, minha solidariedade: presencio como, momento ou outro, são alvo de olhares de recriminação, flechadas silenciosas, afinal, a combinação ciclista-fumante é tida minimamente como inusitada, ou até como um ultraje lógico.

Só que ter me permitido, um dia qualquer, tirar o cigarro de minha vida abriu espaço para eu lidar com uma série de questões que normalmente são negligenciadas por aí, colocadas de escanteio nas rodas de conversa do dia-a-dia, como a invisível ansiedade, nervosismo, irritação, falta de disposição, falta de ânimo e fôlego, suas causas e os consequentes causos. Ao conversarem, as pessoas contentam-se menos em ouvir do que em impor conselhos. Na batalha para largar o vício, ouvimos ordens: tem que ter a tal força de vontade, fortalecer o lado psicológico.

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É esse mesmo lado psicológico que eu invoco agora. Relaciono a coragem de pedalar e utilizar a bike no dia-a-dia (= meio de transporte ativo) com a convicção necessária para largar um vício: o de sempre só enxergar mais problemas que soluções.

O mais difícil não é pedalar. É, por exemplo, conviver com aquele colega de trabalho inconveniente que antes do bom dia, boa tarde, vem te perguntar já em tom de acusação: “nossa, mas você tem mesmo coragem de pedalar à noite?”, “onde é que você mora?”, “pra onde você tá indo agora?” como se fosse minha a falta de capacidade de planejar a própria vida, como se meu cotidiano ciclístico fosse fruto de um delírio, e que eu, pobre moça insana, então careço automaticamente de ter minha agenda revisada pelo mesmo genial colega, que não se permite sequer conceber que no universo hajam outros meios de transporte mais velozes e eficientes do que o ônibus ou carro na hora do rush para atravessar menos de 10 km que insiste em pegar diariamente o mesmíssimo caminho para casa, paralisado pela aparente falta de opção e pelas inelutáveis incontingências da vida.

O mais fácil é pedalar. Quando pedalo, no exato momento em que um pé pisa ligeiro e o outro me impulsiona metros a frente, me afasto veloz e ligeira dos mil e um obstáculos mentais e alheios lançados a torto e a direito. Feito moeda, aquele comentário que quer proteger, também quer aprisionar. Minha mãe me pede para ter cuidado, afinal ela mesma jamais transitaria por espaços públicos, não fosse pelo carro. Não fosse pelo ônibus. Não fosse pelo metrô. Não fosse pelo medo. Só que o medo paralisa, nos tira a capacidade de raciocinar. Não fujo do conselho materno, absorvo, logo digo: não espere dos outros a convicção para fazer aquilo que quer. Só nós mesmas podemos saber com profundidade o que nos motiva. Se você ainda não sabe o que te motiva, não se zangue. Vá pedalar e respire fundo.

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As pessoas que nos amam (ou não) às vezes nos encarceram em uma visão que diz respeito ao mundo delas, e não exatamente a nosso mundo ciclístico. Mamãe projeta seu medo em mim, e pode até supor, mas não faz idéia dos milhares de lindos e improváveis caminhos ciclísticos que me aguardam todas as manhãs. Talvez uma câmera no capacete traduziria em imagens a liberdade de estar em uma ciclovia a caminho dos compromissos; a sensação, cada um tem por si.

Quando ouço um comentário inconveniente, porém com fundo de preocupação, me resguardo a tempo de criar algumas ressalvas, para que assim a preocupação do outro não se torne a minha jaula.

A primeira ressalva seria: “a primeira pessoa a colher o benefício de pedalar é quem pedala”. A segunda: “quem nunca foi, pode até saber a direção, mas jamais conhecerá cada lombada.” Concluo que, se minha mãe, tia, prima, sobrinha ou vizinha me desaconselha veementemente a me arriscar no trânsito, porque essa cidade é impossível, é um caos insuportável, dá mal pra sobreviver e blablablá, eu sorrio genuinamente, agradeço a intenção de cuidado, e considero que esta pessoa definitivamente não tem a experiência que eu tenho de pedalar, por que sua fala se choca com minha realidade (só desde 2011). Então pode ser exagero esperar de alguém a compreensão de algo que desconhece.

A vida é bela nos detalhes: outro dia pude até ler no muro de uma casa uma plaquinha talhada a mão, pintada com capricho: “siga sua felicidade”. Se é a bike ou o cigarro, permita-se a conexão consigo mesma para estar integrada àquilo que te motiva.

Me permito descobrir: pedalo sim! e estou vivendo… tem gente que não pedala e está morrendo – eu pedalo sim!!!

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The Louise Stern é ciclista e estudante de alemão e teatro.

Em sua profissão escreve, traduz, ensina idiomas, comunicação & organização pessoal.

Dia das mães: é possível pedalar e maternar!

Sabe aquela história do case ou compre uma bicicleta? Imaginem o nível hard quando a sociedade pensa nessa relação se tratando de ter filhos. No meio de uma avalanche de informações negativas ou positivas lançadas sem precedentes à uma grávida o nível de “loucura” que as pessoas associam à nós – mães ciclistas – é intensificado.

No entanto, dentro da normalidade da saúde, entende-se que gravidez não é doença e não sendo doença, é possível seguir a vida normalmente. Foi o que aconteceu comigo. Engravidei em 2015, uma gestação planejada e desejada. Já pedalava desde 2011, e entrei no ativismo concomitantemente. Quando engravidei passei os três primeiros meses da gestação – que são considerados de risco – esperando ansiosamente esse período passar para invadir as ruas com meu barrigão de bicicleta.

Quando chegou o dia que eu completava os 3 meses peguei a bike com o marido e fomos fazer feira. Era perto de casa, o caminho era tranquilo. E depois desse dia não parei mais com os pedais até parir. Sempre que tinha uma oportunidade pegava a magrela para me exercitar e levar o baby para sentir a delícia que é estar sobre duas rodas.

Após o parto passado o tempo do resguardo e do amadurecimento da estrutura óssea do pequeno Ravi, retomamos os pedais, quando ele completou 4 meses. Ainda impossibilitado de sentar, ele ia curtindo o calorzinho da mamãe amarrado ao sling. Foi o jeito mais seguro que achamos de levá-lo o quanto antes para dar início às suas aventuras. Foram muitas pedaladas pelo conjunto onde morávamos na época. Sempre saíamos para curtir a tarde, visitar os avós, pegar um ventinho no rosto.

Quando ele atingiu entre sete a oito meses já estava com suas habilidades para sentar bem estabelecidas, investimos numa cadeirinha. Nos mudamos para outra cidade, vizinha da que residíamos antes, e agora a gente se desloca, principalmente aos finais de semana, de bicicleta com ele, hoje prestes a completar dois anos. É uma delícia sair em família para pedalar e ver o quanto ele curte perceber a cidade e gritar Uhuuuuulllllll quando a gente pedala forte.

Eu conto essa historinha cheia de orgulho para dizer a todo mundo que, sim! É possível ser mãe e pedalar. Não mudamos tanto a nossa rotina em relação as pedaladas urbanas, porque ele nos acompanha sempre que possível.

Ravi é mais um dos mascotinhos do Bike Anjo Belém. Participa das atividades com certa frequência e daqui a pouco estará passeando com a sua bicicletinha pelas ruas. Para provar que mamãe não precisa deixar a bicicleta de lado, porque virou mãe. Muito pelo contrário. A bicicleta é nossa grande aliada. É nossa luta diária por uma sociedade mais justa, respeitosa e que garanta a todas as pessoas o direito à cidade.

Feliz dia das mães!

Por Melissa Nogushi

Melissa Noguchi, 30 anos, mora em Belém do Pará. É jornalista e especialista em cidadania e políticas públicas. Trabalha com assessoria de comunicação sindical, empresarial e consultoria em comunicação para projetos sociais. É Ativista da bici e do parto humanizado, mãe do Ravi, autora do Blog ‘As Aventuras de Ravi’ (asaventurasderavi.blogspot.com), integrante do coletivo Ciclomobilidade Pará, Bike Anja e conselheira da Região Norte da União dos Ciclistas do Brasil (UCB).

Mudei, mudei, mudei até encontrar Buenos Aires para pedalar.

Mudei para Buenos Aires há alguns meses e me tornei a chata que, sempre que algo acontece com algum ciclista em São Paulo, fica falando: “como aqui é melhor para pedalar”. Até que me pediram para fazer esse texto comparando como é utilizar a bicicleta aqui em Buenos Aires, frente ao que era em São Paulo. Assim, comecei a pensar sobre o assunto de forma mais ampla, sobre toda a minha experiência, ou não, com as bikes em São Paulo.

A primeira vez, depois de adulta, que quis comprar uma bicicleta e sair pedalando foi em 2008. Eu não tinha carro e queria uma forma de transporte para distâncias médias sem ter que encarar um ônibus lotado e lento no horário de pico. Tive a ideia de comprar uma bike e fui começar a tentar usá-la. Primeiro me proibiram de colocá-a na garagem, já que eu não tinha uma vaga, e também falaram que poderiam roubá-la. Ok, resolvi deixá-la no meu apê. Primeiro dia que sai com ela em horário comercial, tomei uma bronca, pois eu não poderia levá-la no elevador, pois a bike poderia estragá-lo. Realmente, era um “belo” elevador (todo azul e horrível!)…  Como morava no sexto andar, não me empolguei muito com as escadas e logo abandonei o projeto de pedalar em São Paulo.

Passados alguns anos da primeira tentativa comprei uma dobrável. Agora não tinha desculpa para não deixarem eu usar o elevador! Daí comecei a ver a realidade das ruas de São Paulo e a me apavorar. Não dava para pedalar um pouco sem ser fechada, assustada por motoristas, tomei finas “educativas”, xingada etc. Desisti mais uma vez.

Em 2015 mudei de prédio. Lá tinha um local para deixar bicicletas na garagem. Daí tudo começou a mudar. Primeiro meu marido comprou uma para ele e ver a sua felicidade em utilizá-la,  fez renascer  em mim a vontade de pedalar em São Paulo. Para não gastar novamente com uma bicicleta resolvi pegar uma velinha e reformar. Daí voltei a andar, mas com muito medo.

Nessa altura, meu marido já estava colaborando com o Bike Anjo e me ajudou nas primeiras pedaladas. Mas mesmo assim eu tinha medo de avenidas, pânico com os ônibus, que jogam os carros de propósito para cima dos ciclistas… Era tanto medo do trânsito que demorei para começar a ter medo dos assaltos. Encarei os medos e comecei a pedalar primeiro com ele e depois sozinha. As dicas de como pedalar na cidade dadas pelos Anjos me ajudaram muito nessa fase. Sair de bike em São Paulo fazia com que me sentisse poderosa e cheia de vida, sempre gostei de andar a pé para sentir a cidade melhor, mas que delícia era andar de bicicleta. Mas mesmo assim, sempre muito assustada com o tratamento dos motoristas com os ciclistas e sem coragem para pegar a bike e andar sem rumo pela cidade. Sempre ia para lugares que eu conhecia, evitava avenidas com muitos ônibus, entre outros medos.

Como eu tinha medo de pedalar em uma velocidade muito baixa troquei a minha bicicleta no fim de 2016 por uma mas adequada para meu tamanho, com ela me sentia mais estável e consequentemente mais segura. O primeiro grande teste dela foi uma ida do centro de São Paulo até Santo André no ABC paulista. No caminho, para variar, ouvimos muitos xingamentos, mas também fomos parados por um motociclista que estava curioso sobre se a lei permite pedalar na Av dos Estados, que liga a capital ao ABC. Explicamos rapidamente que sim e ele saiu com um sorriso de quem também queria estar pedalando naquele momento. Até então caminhos mais longos e com grandes avenidas eu só fazia acompanhada, ou com as anjas ou com o marido, mas nunca sozinha. Até que um belo dia fui chamada de última hora para ir comer no Shopping eldorado, que fica ao lado de uma avenida muito movimentada chamada Rebouças. Como era em um domingo de noite de um feriado eu sabia que seria uma espera sem fim por um ônibus, mas não era longe, só uns 7 km. Comecei então a pensar em ir de bike, fiquei me arrumando e toda hora pensando se eu ia ou não ia de bike. Até que eu fui! Subi a consolação com medo de assaltos, pois ela é escura e erma. Como nesse trecho tem um ciclofaixa a vida fica mais fácil. Mas logo chegou a descida da rebouças. Respirei fundo e comecei a descer. Que delicia! O trânsito estava tranquilo, é uma via com asfalto bom, a sensação de tirar um pouco a mão do freio e deixar descer foi maravilhosa. Me senti super poderosa! Chegando no Shopping outra felicidade, um bicicletário novo, com segurança, uma pia para lavar o rosto e entrar no Shopping mais bela do que quem estava de carro irritada para achar uma vaga.

Em 2017 nos mudamos para Buenos Aires e a minha relação de amor com a bike e essa cidade só cresceu. Por problemas para encontrar um aluguel permanente, tivemos que nos mudar algumas vezes em poucos meses. Em todos os prédios a bicicleta é muito bem vista. SEMPRE que ela cabe no elevador, eu posso usá-lo. O elevador do prédio onde moro é cheio de espelhos e não existe nenhuma objeção em transportar as bicicletas nele. Onde eu fazia curso de espanhol me arranjaram um cantinho para eu deixar a bike, ao invés de precisar deixá-la em algum poste. Ao pedalar na rua ninguém me manda para a ciclofaixa. Pelo contrário, ultrapassam com todo o cuidado reduzindo a velocidade. Ok, eles ultrapassam as vezes muito perto, mas por que aqui se dirige muito perto mesmo, não com maldade. Em cruzamentos sem farol a maioria dos motoristas dão preferência para os ciclistas e pedestres. Só essas pequenas diferenças já fazem a cidade muito mais atrativa para pedalar.Algo que atrapalha bastante o pedal aqui são as filas duplas, os argentinos param em fila dupla do nada, principalmente os taxistas para deixar ou pegar um cliente, então se você não está muito atento, ou a uma distância de segurança pode acabar batendo na traseira deles. A visão da bike como meio de transporte ainda está em construção, mas há o respeito com quem pedala. Algo que observo muito é o número de mulheres pedalando. Tem dia que cruzo com mais mulheres do que homens andando de bicicleta. No começo eu achava isso tão legal que eu até contava quantos homens ou mulheres estavam passado. Aqui eu finalmente perdi o medo de pedalar.

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Motorista parando no cruzamento em Buenos Aires.

Conhecer Buenos Aires me deu esperanças que um dia São Paulo possa se tornar um local mais seguro para quem pedala. Aqui também é um país em desenvolvimento, onde também falta estrutura tanto em ciclovias quanto nas vias “de carros”, mas eles conseguem conviver. Como em São Paulo as ciclovias estão principalmente no centro e em locais de lazer. Aqui a mentalidade de que é possível viver sem carro é mais aceita pela classe média, o que ajuda na aceitação da bicicleta.  

Por Ester Mello